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NEY VILELA

Cultura: questão de Estado

Raymond Williams, ao analisar questões culturais, propôs a comparação com uma escada rolante. Aproveito esta comparação: há uma infinidade de propostas, ideias novas, produções culturais, ocorrendo a todo momento, no andar térreo (ou seja, nas comunidades, nos guetos, nas ruas, nas praças); e no andar de cima, as grandes corporações midiáticas negociam e distribuem produtos culturais já assimilados pelo grande público, no ambiente da chamada “cultura de massas”.

O problema é que, na economia de mercado, o consumo contínuo é ingrediente fundamental. Os produtos culturais precisam ser continuamente substituídos por invenções novas, para que a roda do consumo continue a girar. Isso vale para músicas, espetáculos televisivos ou teatrais, mas vale também para design de automóveis, moda, gastronomia, layout de casas e escritórios, interface de smartphones e toda a gama de produtos do nosso dia-a-dia. Assim, torna-se necessária a existência de uma “escada rolante”, que permita o deslocamento das novas ideias do primeiro andar para o reino encantado da sociedade de consumo.

Grandes empresários não costumam colocar dinheiro em risco, apostando em produtos que não garantam aceitação e lucro certos. Em suma, a energia que move a escada rolante é uma obrigação de Estado.
De outro lado, os artistas (artífices, na acepção do termo; intelectuais; produtores culturais) que habitam a planície, independentemente do fato de sonhar apenas com o enriquecimento financeiro ou se o sonho é o de promover revoluções sociais, necessitam acessar a “escada rolante”, para atingir seus objetivos.

Os grandes governantes, independentemente de sua posição no espectro político, entendem o quanto cultura é importante. Isto explica porque, em plena Grande Depressão dos EUA, Roosevelt criou o Federal Art Project, que empregou cinco mil artistas plásticos (só no ano de 1936). Ou explica os investimentos no Balé Bolshoi, desde 1773, promovidos tanto pelo Czares absolutistas russos quanto por Stálin.

Cultura é um investimento de Estado: os dados de 2018 do Departamento de Análise Econômica dos EUA informam que as artes acrescentam US$763,3 bilhões à economia do país, valor que é quatro vezes maior do que o auferido, por exemplo, pela agricultura.

Aqui, no Brasil, Juscelino Kubitschek trouxe a arte e a cultura para o processo de tomada de decisões dos rumos do país. Oscar Niemeyer, Burle Marx, Alfredo Volpi, Bruno Giorgio ajudaram a construir Brasília. O Brasil cresceu 8% ao ano, no período JK; ganhamos – pela primeira vez – a copa do mundo, começa a Bossa Nova e se estrutura o Cinema Novo, o país se urbaniza. Coincidência?

No regime militar, estruturou-se a Embrafilme, o Serviço nacional do Teatro, Funarte, Conselho Nacional de Cinema, Conselho Nacional de Direito Autoral; criou-se a Política Nacional de Cultura. Tivemos crescimento econômico invejável e o crescimento civilizatório ocorreu concomitantemente.

Os militares tentaram estancar o despertar da cidadania, com censura e repressão. Claro que não conseguiram frear esse despertar, pois é algo irresistível: os festivais de música, o Cinema Novo, a “geração mimeógrafo”, os grupos de teatro amador e profissional, as bandas de rock surgidas nas garagens das casas da classe média, os expoentes da MPB, os locutores esportivos, todos eles foram mais fortes. De qualquer forma, mesmo sob o risco de questionamento e sublevação, os militares de 1964 investiram em cultura.

Cultura é questão de Estado, é base para a cidadania e para a economia. Extinguir o Ministério da Cultura é ação de quem não entende para o que serve o Estado. Sobretudo, é uma demonstração inequívoca de burrice.

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